Lembro do dia que a vi.
Ela estava de calça jeans surrada, uma blusa do Gun’s Rose preta com um tênis
da Nike vermelho com cinza. Ela não estava a mais bem arrumada, mas era a mais
atraente da sala. Deslumbrante de qualquer forma.
Ela era caloura. Entrara
para a universidade com 18 anos. Era nova e com um instinto de sobrevivência
sensacional. Parecia não ter medo de nada e ninguém. Foi isso que me atraiu. Apaixonei-me
de primeira. Estava fisgado por aquela mulher.
Lembro-me avidamente
quando formos apresentados. Fiquei reprovado na disciplina de Metodologia
Científica e tive que fazê-la com a turma de calouros. Agradeço ao professor
por ter me reprovado. Conheci. Ela.
Ela era meu par numa atividade sobre alguma
coisa sobre hipotético-dedutivo ou algo assim. Ela tem um sorriso estonteante.
Só isso conquista qualquer um.
Viramos amigos. Tínhamos
gostos bem diferentes, mas o amor tudo suporta. Será mesmo?
Em seis meses, eu
namorava a menina mais cobiçada do curso de Engenharia Elétrica. Éramos o casal
mais amado pelas pessoas. Ela a Desejada e eu O Galã do curso. Perfeitos,
entretanto até onde?
Com o envolvimento tudo ficou
mais simples e sem exigências de ambos os lados. Engano meu. Ela podia ser revolucionária,
porém era humana também. Tinha ciúmes e muitos defeitos. Muitos das quais não
conhecia.
Eu sou narcisista muitas
vezes, mas enxergo quando as pessoas precisam de ajuda. Ela gostava de
massacrar os mais fracos. Humilhava sem medo. Ela era perversa. Como alguém tão
lindo podia ser mau assim?
Ela desfilava agora. Se
exibia sem pudor. Eu estava cansado disso. Queria apenas uma namorada normal.
Não uma Mulher-Maravilha. Ela não era tudo que eu sonhava.
Começamos a discutir
sempre. Eu sou insistente. Minha paixão ainda era forte por ela. Seus braços me
confortavam quando os problemas chegavam. Seu beijo esquentava o meu frio
emocional. Todavia, agora ela era de “Todos”.
Eu queria exclusividade.
Pode soar muito egoísta, mas ela era minha namorada. Queria ficar perto dela.
Ela conhecia minhas fraquezas e traumas. Parecia brincar comigo e isso criou um
mal-estar terrível em mim.
Estava nu para ela
emocionalmente. Não fingia com ela. Ela sempre fingira. Devia ter apostado
ficar com o Cara do curso. Não sabia que eu também possuía sentimentos e não
queria sofrer. Não daquela forma.
Lembro-me das amargas
lágrimas que senti quando a vi beijar meu amigo numa sala de aula. Quase desmaiei.
A mulher que eu cuidara sempre estava beijando outro. E era minha. Ou não?
Ela me viu e ficou
espantada. Tentou falar algo. Sai antes das mentiras. O que ela iria falar?
Nada poderia apagar o que eu vi. Fui traído. Sempre fui. Eu que não enxergava
isso.
Ela usou e abusou de mim.
Eu não vira. Chorei ferozmente em minha casa. Caminhei sem rumo pela orla da
praia. Meu coração estava desamartelado.
Repentinamente senti uma
paz na minha alma. Eu não era apaixonado por aquela mulher. Era apenas
encantado pela sua imagem. Agora a conhecia. Era víbora. Tinha veneno mortal.
Sem escrúpulos. Sofreria sem mim. Era o fim. Meu recomeço. Minha liberdade.
Terminei. Ela estava
chorando. Como ela estava sofrendo se me abandonara sempre quando eu mais
precisava de seus cuidados? Falsidade só podia ser. Mentirosa. Seus encantos se
perderam igual as sereias que tentaram pegar Ulisses.
Eu estava livre e leve.
Seu veneno tinha sido neutralizado em meu corpo. Estava sofrendo. Emagrecera.
Sinto pena dela. Não de seu sofrimento. Descobrira que me amava. Eu não amava
ela. Uma conta que não fecharia nunca. Ela aprendera com seus erros.
Apaguei seu número do meu
celular. Exclui das minhas redes sociais seu perfil. Joguei fora tudo dela. Não
sobrara nada. O mal que ela me fizera só me fortaleceu.
Ela andava bebendo muito.
Perdera seu alicerce. Não sofreria com isso. Isso eu aprendera bem com ela.
Indiferença evita problemas e dores desnecessárias. Eu não era cruel. Ela
apenas estava sofrendo com seus erros.
Sozinha. Não tinha mais
seus admiradores que tanto a seguiam. Ela apenas desejada e não amada.
Desfilava na universidade, mas era solitária em seu quarto. Cheia de si na rua
e vazia na sua cama.
Ainda ligava para mim.
Não atendia. Meu tempo com ela já terminara. Não queria estender mais nada.
Nossos elos tinham sido rompidos. Agora eram caminhos diferentes.
Ela sumira do curso.
Escutei que tinha engravidado de algum rapaz. Esse não queria assumir a
criança. Senti pena novamente, mas apenas isso.
Eles casaram. Agora ela
se aquietaria. Engano meu. Deixava a criança com sua mãe e ia desfilar por aí.
Agora sem glamour.
Ela perdera o brilho e eu
ganhara a Liberdade.
A paixão se fora com seu
brilho. Eu estava iludido pela imagem. Apaixonado pela Utopia. Encontrei o
caminho de volta. Agora a vejo e finjo não ver. Quero só lembrar dos momentos
bons. Não lembro de nenhum. Ela era uma víbora. Somente isso.



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