Título:
Onde
estivestes de noite
Autora:
Clarice
Lispector
Editora:
Rocco
Ano:
1974
N°de
páginas: 96
SINOPSE:
Publicado em 1974, reúne crônicas, contos e produções ficcionais que fogem a classificações. Como sugere o texto que dá título ao livro, a obra explora dimensões pulsionais, áreas limítrofes com o delírio e o mágico, androginia, camadas íntimas do ser. A noite se apresenta como materialização do onírico, lugar de rituais, de acontecimentos improváveis, mas densos de realidade – ou de infrarrealidade –, até que aconteça a manhã “límpida como coisa recém-lavada”. Manhã que “em tanta mansidão” pode abrigar a noite e o “modo mais leve e silencioso de existir”.
Uma das barreiras a serem vencidas para chegar ao que “é”, conforme “Relatório da coisa”, consiste em abolir a palavra, anteceder ao ato de nomeação. O excesso de dizer e ao mesmo tempo a incompletude do dizer estão em tudo o que se diz. Assim como o relógio não dá conta do significado do tempo, a palavra é posta em cheque quanto a sua capacidade de significar. A reflexão reaparece em “É para lá que eu vou”.
A escritora que mais
gosto. Minha favorita no mundo literário. Intensidade e leveza. Faísca e
Incêndio em cada palavra escrita por ela. Vida e Morte. Barulho e Silêncio.
Guerra e Paz. Santo e Profano. Certo e Errado. Vida e Desvida. Começo e Fim.
Tudo isso é Lispector. Tudo é Sveglia. O que não está escrito é Clarice. Enfim,
a palavra é ela.
Este livro é uma obra
sensacional da escritora brasileira Clarice Lispector. Uma das mais profundas
de sua coletânea.
Na leitura de Onde estivestes de noite percebemos a
temporalidade das estórias. O tempo em cada fala e acontecimento. As palavras e
as pausas propositais transmitem essa ideia de Tempo para os leitores.
Com a conversa entre a
velha senhora Maria Rita com a jovem Angela Pralini percebemos o diálogo entre
gerações. Entre vidas e destinos diferentes. Sonhos de épocas distintas.
Frustrações e esperanças dialogam com dualidade. O tempo é dualidade. O velho e
o novo. O medo e a segurança. O ontem e o agora. A vida e a Morte.
Clarice é autora de
Transição. Nada para ela é a mesma coisa. Tudo é passageiro. O momento é o
Agora. Nada será o mesmo daqui um segundo depois. A mudança é exigência da
alma. Paz é questão do espírito.
“ O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais
voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce
arde, flameja. ”
No conto Seco Estudo de Cavalos, vemos uma
Lispector que ama cavalos. Tem um espírito indomável como esse animal. Não só
ela, mas toda a natureza humana. A docilidade desse animal não esconde seu
ímpeto pela Liberdade. Seus olhos são pura ingenuidade e esperança.
Em Onde estivestes de noite somos convidados a examinar o Silêncio.
Tentados a descobrir nossos dilemas humanos. A solidão e a companhia tornam-se
amigas e aliadas. O silêncio pode ser perturbador, mas é nele que nasce a
tentação. Nele está o perigo para a paz. Entretanto, sem ele não Conquista.
Há uma força invisível que
move nosso ser. Não se sabe o que é. Só sabe que é. Uma autoridade espiritual.
Guia da Vida. Movidos pelo Onipresente. Dominados pelo Misterioso. Não é
loucura. Incompreensão. Luz para nossa escuridão.
“ Tudo que escrevi é verdade e
existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite?
[...]”
Na continuação temporal
construída pela autora viajamos espiritualmente com o conto O Relatório da Coisa na qual somos
defrontamos com uma Força Maior e Invisível para as pessoas. Sveglia. Não se
sabe o que é. Só sabemos que Ele é. Força Sobre-humana. Onipresente. Imutável. Ele é o que não é. Faz
parte de nós, mas não é Nós. É briga, mas não paz. É hoje e Felicidade todo
dia.
“
Se alguém entender este meu irrevelado relatório e preciso, esse alguém é.”
Rimos com As maniganças de Dona Frozina que nos
retrata uma senhora de idade já avançada e seu segredo de ter uma boa velhice e
não ser amargurada e está sempre pronta para ajudar as pessoas. Fala a todo
momento o nome de Deus e vários santos. Parece não ter medo de falar o nome dos
santos a todo momento. Dorme no meio da reza. Deixa os santos na espera. Coisa
feia. Nem se importa. Irrita Lispector.
“D. Frozina usa o nome de Deus mais do que deveria. Não se deve usar o
nome de Deus em vão. Mas com ela não cola essa lei. ”
O Morto no Mar da Urca nos traz a dualidade entre Vida e Morte. Ambas
vivem perfeitamente ligadas e podem ser confundidas em suas ações.
Um jovem morreu no Mar da
Urca quando estava tomando banho. Descuidado diz a narradora. Não sabe o que é
prevenir? Brincar com o mar não dar em nada bom. Terminou em morte. Morte
Jovem. Prematura. Porém, quem mandou o rapaz ser descuidado?
“ Morto de bobo que era. Só se deve ir à Urca para provar vestido alegre.
”
Nos contos Silêncio, Esvaziamento e Uma tarde plena, Clarice
aborda o Silêncio e a Descoberta como tema principal. Nos dois primeiros, fala
sobre como o silêncio pode indicar que uma relação chegou ao um ponto de
distanciamento, na qual deve-se optar pelo afastamento e assim prolongando o
carinho entre amigos e afins. A descoberta permanece no Mistério. A plenitude é
o Desconhecido. Distanciar para esconder o que foi mostrado. O atraente é
aquilo que não é conhecido por nós.
“
[...] para si mesma e não se entendia muito bem consigo própria. ”
O livro finaliza com
leveza e intensidade com os contos finais: Tanta
Mansidão, onde Lispector fala que é agradável chegar num ponto da vida que
não há dores e nem sofrimentos. Há apenas Plenitude. “ Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na
chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a
consolar. ”
Fecha-se essa obra
profunda e maravilhosa com muitos dilemas em abertos e questionamentos
provocados. Dualidade define esse livro.
“ Só posso escrever se estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo.
”





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